Ao longo de minha trajetória de estudos, deparei-me com uma ideia que se tornou essencial para compreender não apenas o luxo, mas o próprio movimento da humanidade em direção ao excesso. O luxo não é uma invenção recente das cortes europeias, nem tampouco um privilégio moderno do capital. Ele nasce naquilo que Mauss chamou de o princípio da dádiva: o gesto ritual que ultrapassa a necessidade imediata e se converte em excesso, em ostentação, em poder simbólico. Nos primeiros grupos humanos, ainda sem moeda ou mercado, já se percebia o impulso de oferecer mais do que o necessário, de desperdiçar como demonstração de força, de transformar a abundância em espetáculo. É nesse ponto que o luxo revela sua origem selvagem.
Sempre me intriguei com a forma como o luxo atravessa a história: ele desperta adoração e repulsa, fascínio e violência, reverência e ataque. Os que ousam se posicionar de maneira marcante diante do mundo são invariavelmente alvos, não apenas por aquilo que possuem, mas pelo que simbolizam. Surge então a pergunta inevitável: por que o luxo exerce esse magnetismo, atraindo e repelindo ao mesmo tempo?
A resposta não se encontra somente na posse material ou na moeda disponível. Ela remonta às fontes primárias do desejo humano, que nos acompanham desde os primeiros cultos: a violência, o sexo, a abundância alimentar e a influência comunicativa. Cada uma dessas forças foi, em seu tempo, um princípio organizador da vida coletiva, um eixo em torno do qual se erguiam rituais e se fundavam hierarquias. Se hoje esses elementos se encontram conectados e diluídos em formas fluidas de poder, nem sempre foi assim. No início, eram cultos. Eram divindades em estado bruto, capazes de ordenar a vida e a morte, a fome e a festa, o silêncio e a palavra.
É nesse terreno ancestral que a Arkhos lança sua primeira chama. Reconhecer que o luxo tem raízes selvagens, o excesso e a celebração não são meras futilidades modernas, mas forças que sempre moveram a humanidade. É desse mesmo impulso que nasce Dionísio, a primeira coleção: um retorno ao êxtase, ao vinho, à irrupção da festa como linguagem primordial do poder e da beleza.
D.F.A
🎨 Albert Eckhout - Brazilian Fruits (1610-1666)
